segunda-feira, 30 de março de 2026

O CLÍMAX DA PARANOIA RÍTMICA

À medida que a noite avançava, o som aumentava. 

Tum-tum. Tum-tum. 

Não era meu coração. 

Era o som do mundo lá fora, preparando-se para me consumir. 

O domingo estava morto, e eu era o seu único e desesperado choroso. 

As sombras nas paredes agora dançavam um minuetto macabro, e cada batida do relógio ecoava como um grito de uma vida sendo enterrada viva sob toneladas de obrigações triviais e relatórios sem alma.

"Basta!" gritei para o vazio, mas o eco devolveu-me apenas o escárnio de minha própria impotência. 

O estupor da meia-noite aproximava-se. 

Eu não era mais um homem; era um condenado em sua cela, observando o carrasco — a luz da manhã — afiar a lâmina do novo dia.

A revelação final é de uma sobriedade aterrorizante: o verdadeiro horror não reside nos espectros ou nos mausoléus, mas na repetição cíclica da servidão que nos rouba a eternidade. 

Quando o primeiro raio de sol tocou o assoalho, eu já não possuía razão. 

Eu era apenas mais uma engrenagem, lubrificada pelas lágrimas de um domingo que se recusava a findar em minha memória.

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