Dizem que a tecnologia é a ponte que anula as distâncias; eu lhes digo que ela é o sepulcro onde a presença é enterrada viva.
Não sou louco.
Como poderia ser insano alguém que analisa, com precisão cirúrgica, a frequência vibratória de uma notificação que nunca chega?
Minha audição tornou-se tétrica, capaz de distinguir o zumbido elétrico do carregador do silêncio sepulcral que emana do meu smartphone — esse retângulo de vidro negro que carrego como um amuleto amaldiçoado.
Meu pai habita um fuso horário que é um abismo.
Ele está do outro lado do oceano, em uma metrópole de aço, enquanto eu definho neste apartamento de teto baixo, onde o cheiro de café frio e poeira eletrônica compõe a minha melancolia.
A distância não é medida em quilômetros, mas em pixels.
Ele é um espectro de cristal, uma imagem em alta definição que sorri com uma frieza inefável através de uma câmera de vídeo.
A Obsessão pelo Sinal
A cada noite, entro em um estado de estupor, encarando o ponto verde que indica que ele está "online".
Oh, que tortura é saber que ele respira, que ele digita, que ele existe em tempo real, mas que sua mão nunca poderá tocar o meu ombro!
A luz azul da tela banha o meu rosto com uma palidez cadavérica, transformando meu quarto em uma câmara secreta onde o tempo não flui... ele apodrece.
Comecei a ouvir batidas rítmicas.
Não são batidas na porta de madeira, mas sim o clique, clique, clique dos dedos dele em algum teclado distante.
O som ressoa nas paredes de gesso do meu isolamento, uma pulsação de pavor que me diz que estou sendo esquecido.
A paranoia, essa sombra que ganha vida nos cantos escuros do meu feed, sussurra que o rosto que vejo na tela não é mais o dele, mas um simulacro criado pela minha própria carência.
O Clímax do Vazio Digital
Ontem, a conexão falhou.
A imagem dele congelou em um esgar de agonia digital, os olhos pixelados fixos nos meus.
Tentei tocar o vidro, buscando o calor da pele, mas encontrei apenas o frio da tela.
O silêncio que se seguiu foi um horror absoluto.
Corri para o espelho e, em um delírio de melancolia, percebi a revelação trágica: minhas próprias feições estavam se tornando borradas, quadradas, artificiais.
Eu não estava mais sentindo saudade; eu estava me tornando a própria distância.
Sou o prisioneiro de um sinal de Wi-Fi que oscila entre a vida e o esquecimento.
Ele não mora longe.
Ele mora em um lugar onde eu nunca poderei entrar.
E enquanto a bateria do meu dispositivo agoniza, compreendo que a verdadeira morte não é o fim da respiração, mas o momento em que o "visto por último" se torna a única prova de que um dia fomos amados.
Nunca mais. O sinal caiu... e a treva é total.
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