quinta-feira, 26 de março de 2026

A Relíquia do Silêncio

A Relíquia do Silêncio

Certa noite, quando a lua pendia no céu como um olho cego e leitoso, encontrei o que buscava. 

Escondido atrás de uma fileira de tomos sobre a decomposição da matéria, repousava um alaúde de marfim. 

Não era um instrumento comum. 

Suas cordas, diziam os sussurros, foram banhadas no licor do arrependimento.

"A arte", eu costumava dizer às sombras da alcova, "não é um reflexo da vida, mas o grito de sua inevitável partida."

Com dedos trêmulos pela antecipação — uma volúpia quase dolorosa —, toquei a primeira nota. 

O som não ecoou pelo quarto; ele drenou a luz. 

Foi uma vibração profunda, um acorde que parecia ter sido arrancado do peito de um anjo caído. 

Naquele instante, eu não era mais um jovem de província; eu era o arquiteto do Infinito.

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