O Preço da Visão
Passei dias, ou talvez eras — pois o relógio de pêndulo na sala de estar havia parado de pulsar — entregue àquela música.
Minha pele tornou-se da cor do pergaminho antigo; meus olhos, duas brasas de uma obsessão que devorava o próprio hospedeiro.
Eu via tudo!
Via a dança dos átomos, o nascimento das estrelas e o destino final de cada alma que já ousara amar.
Era uma euforia aterrorizante.
No entanto, quanto mais a melodia se tornava cativante, mais o mundo real se desvanecia.
As cores das flores no jardim murchavam ao meu olhar; o riso da criada no corredor soava-me como o ranger de portões enferrujados.
Percebi, tarde demais, a ironia de minha busca.
Eu queria a vida em sua plenitude máxima, mas a eloquência do meu sonho exigia o silêncio do meu ser.
Para tocar a nota final — aquela que me tornaria eterno — eu deveria renunciar ao último fôlego que me restava.
0 comments:
Postar um comentário