sexta-feira, 27 de março de 2026

O Preço da Visão

 

O Preço da Visão

Passei dias, ou talvez eras — pois o relógio de pêndulo na sala de estar havia parado de pulsar — entregue àquela música. 

Minha pele tornou-se da cor do pergaminho antigo; meus olhos, duas brasas de uma obsessão que devorava o próprio hospedeiro.

Eu via tudo! 

Via a dança dos átomos, o nascimento das estrelas e o destino final de cada alma que já ousara amar. 

Era uma euforia aterrorizante. 

No entanto, quanto mais a melodia se tornava cativante, mais o mundo real se desvanecia. 

As cores das flores no jardim murchavam ao meu olhar; o riso da criada no corredor soava-me como o ranger de portões enferrujados.

Percebi, tarde demais, a ironia de minha busca. 

Eu queria a vida em sua plenitude máxima, mas a eloquência do meu sonho exigia o silêncio do meu ser.

 Para tocar a nota final — aquela que me tornaria eterno — eu deveria renunciar ao último fôlego que me restava.

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