Louco, dizeis vós?
Como pode a mente ser considerada insana quando sua única falta é a percepção aguçada demais das engrenagens do destino?
Eu não sou louco; sou apenas um prisioneiro da hiperestesia.
Ouço o que vós, em vossa ignorância fagueira, chamais de silêncio, mas que eu reconheço como o rugido ensurdecedor do meu próprio sangue martelando contra as têmporas.
Vivo nesta câmara de isolamento — meu quarto — onde o ar cheira a eletrônicos superaquecidos e a poeira de livros que nunca ousei terminar.
Minha clausura é voluntária, porém ditada por um tirano inefável: a Ansiedade.
Ela não possui rosto, mas tem mil mãos de gelo que apertam meu peito sempre que o mundo exterior ousa exigir minha presença.
O Tétrico Brilho do Vidro
Sobre minha escrivaninha repousa o objeto de meu estupor.
Um pequeno retângulo de vidro e silício que vibra com uma frequência sepulcral.
Cada notificação é um golpe de machado na árvore da minha razão.
O som — aquele bipe agudo e impiedoso — ecoa como o bater de asas de um corvo confinado em uma caixa metálica.
É uma maldição moderna; um portal por onde mil vozes me julgam, me cobram e me condenam ao ostracismo antes mesmo de eu proferir uma palavra.
A luz azul que emana desse cristal amaldiçoado banha minhas mãos com uma palidez tétrica.
Sinto que minha juventude não é uma primavera, mas um outono precoce, uma cinza espalhada ao vento da incerteza.
Por que tremem meus dedos?
Por que o pavor se instala em minha medula quando imagino o olhar do Outro?
O Clímax do Pavor Silencioso
A paranoia cresce como o mofo nas paredes de uma cripta.
Ontem, o relógio na parede parecia conspirar com o meu coração. Tic-tac, bum-bum.
Um ritmo hipnótico que acelerava até que o tempo e a carne fossem uma única massa de agonia.
Eu via sombras dançarem sob o batente da porta — formas distorcidas de expectativas sociais, de futuros fracassados, de palavras não ditas que agora apodreciam em minha garganta.
"Basta!", gritei para o vazio. Mas o vazio, em sua crueldade infinita, apenas me devolveu o reflexo de meus próprios olhos arregalados na tela negra do aparelho.
A revelação foi trágica e absoluta: não há porta de saída nesta arquitetura de medo.
O tétrico carrasco não está do lado de fora, batendo à minha porta. Ele habita o lado de dentro.
Eu sou, ao mesmo tempo, o prisioneiro e o carcereiro; a vítima e o carrasco.
A saudade que sinto não é de um pai ou de um lugar, mas daquele que eu era antes do grande nervosismo me sepultar vivo sob o peso de um mundo que nunca para de observar.
Estou aqui, no Reino do Eterno Infeliz, onde a beleza da vida baila com o horror da mente, e onde o silêncio... o silêncio é o grito mais alto de todos.
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